Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. ALEXANDRE DE MORAES
Inteiro Teor do Acórdão - Página 142 de 331
RE 1010606 / RJ
correta, não há impedimento para a manutenção de sua divulgação.
Agora, a narrativa está dentro da própria liberdade de criação. Se
essa narrativa se desvirtuar, se essa narrativa degradar, insultar, haverá
responsabilidade, mas não se pode impedir, a meu ver, previamente.
Todas as narrativas, todas as opiniões são possíveis em discussões livres
numa democracia. Debater esses assuntos de interesse, de relevância,
inclusive assuntos duros, fatos cruéis que ocorreram, de forma irrestrita,
robusta e aberta faz parte da democracia.
Há programas atuais, em várias emissoras não tão sensacionalistas
como esse programa anterior, documentários nos canais fechados, canais
por assinatura, que, ao tratarem de feminicídios, lembram casos
ocorridos. Como que você vai tratar de determinado caso, como você vai
discutir a ideia, discutir o problema sem fazer uma análise histórica do
desenvolvimento de determinado crime e o porquê disso?
Recentemente, um documentário mostrou por que o Brasil, fora
alguns países islâmicos, é o que tem o maior grau percentual de
homicídios de transexuais. Ora, para isso, foi necessário mostrar, narrar
os casos, desde antigamente até agora, de forma séria e objetiva, sem
qualquer ofensa. Isso faz parte, a meu ver, da liberdade de expressão. E
não cabe ao Poder Público, inclusive ao Judiciário previamente, escolher
ou ter ingerência nessas fontes de informação, nas ideias, nos métodos, na
narrativa que será construída. Cabe, sim, posteriormente responsabilizar,
se houver eventuais desvios ou abusos.
No âmbito da Democracia, a garantia constitucional da liberdade de
expressão não se direciona somente à permissão de expressar as ideias e
informações oficiais produzidas pelos órgãos estatais ou a suposta
verdade das maiorias, mas sim garante as diferentes manifestações e
defende todas as opiniões ou interpretações conflitantes ou
oposicionistas, que podem ser expressadas e devem ser respeitadas, não
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